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O já célebre padre Loreno pediu aos fiéis que não votassem nos partidos que defendem o casamento entre homossexuais, uma vez que a Igreja é contra o casamento entre homossexuais. Mas o padre Loreno não pediu aos fiéis que não votassem nos partidos que defenderam a guerra, embora a Igreja tenha sido, também, contra a guerra. O padre Loreno teve, pois, de optar. E, entre a guerra e o casamento entre homossexuais, optou por condenar o mais pernicioso. Isto significa, evidentemente, que o padre Loreno prefere que dois homens se matem do que se casem.

Vamos supor que um paroquiano se abeira do padre Loreno com a seguinte inquietação:

Paroquiano: Ó padre Loreno, eu sinto qualquer coisa aqui pelo Amílcar mas ainda não consegui perceber o que é. Umas vezes, apetece-me casar com ele; outras vezes, dá-me vontade de o abater a tiro com esta G3. O que hei-de fazer?

Padre Loreno: É melhor optares pela segunda, meu filho, que é mais conforme à lei de Cristo.

Paroquiano: Pois, era a ideia que eu tinha. Porque eu, casando-me com ele, era bem capaz de o amar pela vida fora, e tal.

Padre Loreno: Ui. Que horror, meu filho. Não queremos cá nada disso.

E fica o problema resolvido.

Confesso que sou dos que acham que, se os homossexuais quiserem casar, devem poder fazê-lo. E acredito que, um dia, isso vai ser possível. Nessa altura, quando o casamento entre homossexuais for já uma instituição contra a qual nada há a fazer, o padre Loreno estará metido em sarilhos. Filosoficamente falando, claro. Que dirá ele, então? Condenará o divórcio ou apoiá-lo-á, porque se desfaz um lar homossexual – e a Igreja condena a homossexualidade? Dilemas.

Por Ricardo Araújo Pereira (In Boca do Inferno, revista Visão, nº 624)

publicado por Shyznogud às 22:23 | link do post