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Os bastardos da guerra descobrem as suas raízes

Por Edward Cody

Viveram anos e anos sem saber quem eram os seus verdadeiros pais. Ou a esconder essa verdade. Agora começaram a falar entre si




Jean-Jacques Delorme tinha 23 anos quando soube a verdade. Depois de anos de mistério, durante os quais a sua mãe manteve um persistente silêncio, a avó de Delorme abriu um enorme armário e retirou um envelope amarelecido cheio de fotos de um soldado alemão. Ele tinha sido o amor da sua mãe durante a ocupação da França, na II Guerra Mundial. "Foi quando compreendi tudo", recorda Delorme, incapaz de falar devido à forte emoção que lhe provoca a memória da angustiante tarde de 1967. "Finalmente, eu tinha um pai."

Os historiadores estimam que mais de 800 mil crianças filhas de soldados alemães nasceram durante os cerca de quatro anos de ocupação nazi da Europa, 200 mil das quais em França. Como Delorme, a maior parte foi criada por trás de um véu de segredo e vergonha, ridicularizados na escola e incapazes de perceber o que tinham feito de mal. Muitas das suas mães foram exibidas nuas nas ruas com o cabelo rapado, depois da retirada alemã. Outras, como a de Delorme, estiveram presas por traição.

Mais de seis décadas depois, com essas crianças nos seus 60 anos, há no ar um princípio de mudança. Alguns dos bebés da guerra começaram a falar entre si, lamentando a vergonha que fizeram sentir. Um número crescente decidiu procurar os pais e as famílias alemãs.

A revelação da avó de Delorme foi apenas o início de uma busca de décadas, de procura persistente em arquivos alemães, de pedidos de ajuda a historiadores, de falsas pistas. A mãe, afectada pela prisão como colaboradora a seguir à guerra, não o ajudou. Delorme, contudo, insistiu e há três anos completou, por fim, a sua árvore genealógica.

O pai, descobriu, era Hans Hoffmann, um padeiro de Mainz. Durante a guerra, Hoffmann tocou violoncelo numa orquestra da Wehrmacht enviada para a Paris ocupada, onde arranjou a amante francesa. Depois, quando o Terceiro Reich se desmoronava, a 25 de Abril de 1945, foi morto numa aldeia da Baviera, resistindo a um violento ataque de tanques norte-americanos.

"Não encontrei paz [com a descoberta]. Paz é uma palavra muito forte. Mas alcancei um certo nível de serenidade", diz Delorme, agora com 65 anos, reformado dos Correios em Menton, na Riviera francesa. "De repente, passei a ter pai, tias, primas. Uma família inteira."

Para ajudar pessoas como ele, que procuram as suas origens, Delorme fundou a Coeurs Sans Frontières. A organização, criada há três anos, com 300 membros, todos filhos de soldados alemães, fornece números de telefone para os quais as crianças da guerra podem ligar para falar sobre o que é crescer por trás de um véu. O grupo realizou uma convenção no final do ano passado em Caen para troca de experiências e para ouvir historiadores falar do lugar a que pertencem.


"As nossas vozes"

"O que vivemos e as privações que sentimos durante todas as nossas vidas levaram-nos a fazer ouvir as nossas vozes", explica Gerlina Swillen, uma belga professora do ensino secundário e investigadora da Universidade de Vrije, em Bruxelas. "Não queremos que nenhuma criança passe por isso."

Swillen diz que as pessoas começaram a falar agora, em parte, porque só se atreveram a isso apenas depois da morte das mães. Além disso, acrescenta, as atitudes mudaram, atenuando o estigma, e os arquivos alemães tornaram-se mais acessíveis do que até há poucos anos.

Gerlina Swillen conta que suspeitou durante muito tempo de que havia algo estranho no seu passado. Só soube que o pai era um soldado alemão - um dos cerca de 20 mil na Bélgica - quando a mãe lho disse, em 2007. A mãe continuou a corresponder-se com o antigo amante depois da guerra, mas destruiu as cartas quando casou com um homem belga.

Georg Lilienthal, director do Hadamar Memorial, dedicado às vítimas da "eutanásia" nazi na Alemanha, acha que poucos alemães estão dispostos a falar sobre o assunto, independentemente da emoção que o assunto provoque nos países que ocuparam. Muitos soldados tinham mulheres e filhos. Em muitos casos, estão agora mortos, mas, assinalou, alguns dos bebés da guerra foram bem recebidos pelos seus meios-irmãos e meias-irmãs, enquanto outros foram rejeitados. "É preciso passar mais tempo", acrescenta.

O ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Bernard Kouchner, pediu recentemente ao Governo alemão para dar a cidadania a bebés franceses da guerra que a peçam, depois de traçar a sua filiação. Uma meia-dúzia já obteve passaportes alemães e mais de duas dezenas de outros pediram-na, incluindo Delorme.

"Reconhecer a cidadania alemã a essas pessoas é uma importante decisão, um acto simbólico muito importante do Governo alemão", disse. "Os problemas e dificuldades que essas crianças tiveram durante as suas vidas continuam a traumatizá-las hoje em dia."

Delorme ficou curioso pelo seu parentesco quando descobriu, num documento de identificação, aos 12 anos, que tinha sido "perfilhado" pelo marido da mãe. Perguntou o que era isso, mas ninguém lhe explicou. "A partir de então qualquer coisa me incomodava." Perguntou repetidamente à avó, que o criou, e à mãe, quais eram as suas origens. Da avó recebeu evasivas, da mãe enfado e silêncio.

Filhos de monstros

Na escola, numa pequena cidade da Normandia, era chamado "filho de alemão". À medida que crescia, a verdade começava a tomar forma; o pior foi confirmado com a tardia decisão da avó de lhe mostrar as fotos.

"Éramos os filhos de monstros", diz, recordando o ódio aos nazis quando cresceu na França do pós-guerra. "Eu era um bastardo da minha mãe e, mais que isso, um bastardo de um kraut. Sempre que eu falava das minhas origens, as pessoas afastavam-se. Ganhei o hábito de não falar disso."

A mãe de Delorme morreu em 1994, numa altura em que as suas pesquisas estavam em curso. Depois de anos perdidos a seguir a pista de um "primo" do pai com o qual acabou por descobrir que não tinha relação, soube finalmente da orquestra militar e contactou um arquivista em Berlim, que lhe enviou uma lista dos seus membros. E em 2007 viajou até Mainz, para encontrar o meio-irmão e a meia-irmã.

Até então, os irmãos não faziam ideia que o pai tinha tido uma relação na França ocupada. Mas, após alguns momentos de embaraço, acolheram-no como membro da família. Passaram a trocar presentes no Natal. E recentemente decidiram visitar-se uma vez por ano, alternadamente na Alemanha e na França.

Delorme afirma, contudo, que vai manter o nome, que é da avó e do avô - e da mãe. Vai manter os documentos franceses e, eventualmente, obter passaporte alemão. A sorrir, diz: "Vou usar o passaporte alemão em França e o passaporte francês na Alemanha".

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

publicado por Shyznogud às 14:17 | link do post