...

Prós e contras de duas notícias
Joaquim Vieira? - 20091018
 
Só deve prevalecer um critério para a publicação da notícia: o interesse que tem para o público do órgão de informaçãoOprovedor recebeu um convite no passado dia 9, uma sexta-feira, para participar no programaPrós e Contras, da RTP1, segunda-feira seguinte. A emissão - foi-lhe explicado - destinava-se a discutir as relações do jornalismo com a sociedade, a política e o desenvolvimento. Habituado a intervir sobre questões no âmbito da comunicação, o provedor aceitou, mas no dia do programa soube que a intenção (não declarada no convite) era debater a produção das notícias sobre as suspeitas da Presidência da República (PR) de que estaria sob vigilância por parte do Governo, as quais alvoroçaram a política nacional nos últimos dois meses. As notícias tiveram origem no PÚBLICO e mereceram uma análise crítica do provedor. Essa crítica motivou uma troca de correspondência interna de que houve fuga para o exterior, com a consequente publicação peloDiário de Notíciasde umemail enviado por um para outro jornalista do PÚBLICO onde, entre outras coisas, se revelava o nome de um membro da Casa Civil de Belém como suposta fonte de informação das notícias em causa.

 

Fiel ao princípio de apenas abordar os casos do PÚBLICO nesta página e no seu blogue, o provedor comunicou previamente à apresentadora do programa, Fátima Campos Ferreira (F.C.F.), que não poderia pronunciar-se sobre a atitude do jornal no caso, mas apenas sobre questões genéricas do jornalismo, como aliás lhe fora solicitado. Claro que as televisões - e o serviço público não é excepção - ambicionam sangue, e, após uma primeira parte para disfarçar (que terá sido uma maçada para os telespectadores), entrou-se no que de facto interessava aos promotores do programa: uma luta de galos entre os directores do PÚBLICO, José Manuel Fernandes, e doDN, João Marcelino, acicatada por directores de outros órgãos de informação. Ao longo desta segunda parte - de onde, na opinião do provedor, não saiu dignificado o jornalismo português -, F.C.F. anunciou que o provedor não queria pronunciar-se sobre o assunto, pelo que não lhe concedeu a palavra. Se o tivesse feito, haveria algumas considerações que o provedor, sem prejuízo do seu compromisso para com os leitores do PÚBLICO, gostaria de enunciar, aproveitando para o fazer agora.

 

No essencial discutia-se se eram dignas de publicação tanto a notícia do PÚBLICO sobre as suspeitas de Belém como a doDN dando a conhecer a mensagem trocada entre os dois jornalistas da concorrência. Claro que notícia é todo o facto novo, relevante ou não, que alguém decida difundir para um grupo de pessoas, mas a questão que se colocava era se aquelas notícias em particular se enquadravam no estatuto editorial dos respectivos jornais e se haviam obedecido às regras e deontologia jornalísticas.

 

O provedor não vai reiterar a argumentação já expendida acerca do que considera os erros grosseiros cometidos pelo PÚBLICO no processo. Mas entende ter total justificação a manchete inicial, Presidência suspeita estar a ser vigiada pelo Governo, de 18 de Agosto. A notícia estava devidamente fundamentada numa fonte fidedigna da Casa Civil da PR, identificada no texto como tal, e não era sobre a existência da vigilância governamental (que nunca se comprovou) mas sobre a suspeita nesse sentido formulada por Belém. Perguntava-se noPrós e Contras: essa mera convicção de alguém na PR, mesmo sendo fonte qualificada (como no caso), era noticiável? Sem dúvida: não se tratava das suspeitas de cidadãos privados, mas sim de um estado de espírito indiciador do nível de degradação das relações entre dois órgãos de soberania cuja missão seria cooperar e não alimentar guerrilhas institucionais - e, portanto, uma informação de inegável interesse nacional.

 

Basta aliás avaliar as consequências que a notícia (jamais desmentida por Belém) desencadeou, culminando com o autêntico haraquiri político em directo que foi a comunicação autojustificativa do presidente Cavaco Silva (C.S.) em 29 de Setembro, inteiramente dedicada ao tema, para a caucionar.

 

Quanto à revelação peloDN, em 18 de Setembro, doemaildos jornalistas do PÚBLICO, perguntava-se também na emissão televisiva se era legítima (dado violar correspondência privada), se não deveria ser acompanhada da revelação de como oemail chegou ao jornal e se não haveria grave falta deontológica por se identificar a fonte confidencial de um jornalista.

 

Mais uma vez, segundo o entendimento do provedor, o critério básico que deve prevalecer - atendendo aos princípios editoriais do DN, não muito distintos dos do PÚBLICO - é o do interesse público da notícia. E haveremos de convir que a manchete doDN - alvo de tentativas iniciais de desmentido, mas com uma incoerência que só serviria de comprovativo à sua autenticidade - causou considerável abalo no mundo político, então em plena campanha eleitoral para as legislativas, com reacções de todos os sectores, ajustamentos da agenda e do discurso políticos, eventuais efeitos no resultado das eleições e até a necessidade sentida pelo Presidente de vir a público explicar-se. Como é que não havia ali matéria de notícia? Havia - e muita.

 

Os jornalistas, em regra produtores de notícias, não podem eximir-se à circunstância de serem também objecto de notícia - foi o caso. Habituados a justificar com a prevalência do interesse público a violação, muitas vezes por eles praticada, da correspondência privada de outros cidadãos, não deveriam queixar-se quando, em nome desse mesmo princípio, são alvo de idêntica devassa. É a vida.

 

Por certo, a forma como oemailfoi parar aoDNseria uma história interessante, mas não faria sentido o jornal fazer depender da sua publicação a notícia acerca do conteúdo desseemail, pois estaria a sonegar uma história muito mais interessante do ponto de vista do seu relevo público. Se a fonte exigiu o sigilo, oDNlimitou-se a cumprir a sua obrigação, pois essa seria a condiçãosine qua non para que pudesse trazer ao conhecimento dos leitores uma informação de interesse nacional.

 

Mas, tal como no caso do PÚBLICO, também a notícia do DNfoi afectada por vários erros. O provedor já esclareceu aqui que exerce funções no PÚBLICO, não noDN, mas dirá o que diria na RTP intervindo no âmbito exterior a essas funções. Entre esses erros figura a forma acintosa e inexacta dada à manchete:Assessor do Presidente encomendou caso das escutas. Parte considerável das notícias que todos os dias o público recebe devem-se à iniciativa de fontes de informação junto dosmedia, mas isso não significa que essas notícias sejam "encomendas", já que passam pela prévia mediação dos jornalistas, que avaliam o seu interesse. Assim sucedeu com a notícia original do PÚBLICO. Considerá-la encomendada por Belém é o mesmo que dizer que muitas das notícias publicadas peloDN não passam de encomendas dos seus informadores.

 

Outro problema consistiu na denúncia da fonte do PÚBLICO. Os jornalistas doDNfizeram-no com plena consciência da ilegitimidade, dado saberem (como atrás vimos) que o sigilo profissional enforma a sua actividade, tal como sucede com os médicos, os advogados ou os padres. Poder-se-á argumentar que a preservação do sigilo competiria ao próprio jornalista que contactou a fonte, o qual, quando escreveu o seu nome noemail, já estaria a violar a confidencialidade. Mas, por imperativo ético, deveria haver um mínimo de decência profissional de outros jornalistas para manter essa salvaguarda: não vemos médicos a revelarem a ficha clínica de pacientes de outros médicos, advogados a denunciarem segredos dos constituintes de outros advogados ou padres a divulgarem as confissões recolhidas por outros padres.

 

E se a nova doutrina produzida no centenário matutino advoga o contrário, será que também se aplica a quem trabalha na mesma redacção ou no mesmo grupo empresarial? Poderão, por exemplo, os jornalistas da TSF denunciar as fontes dos do DN e vice-versa? Onde está a fronteira? Parece que se instala antes a lei da selva no jornalismo, que acabará por sair prejudicado, pois as fontes confidenciais perderão a confiança nos jornalistas e deixarão de lhes transmitir informação.

 

Nada disto altera porém o essencial: as duas notícias tiveram mais prós do que contras - e marcaram o jornalismo português por muitos anos.A Secção Norte da Ordem dos Arquitectos, através da presidente, Teresa Novais, e do vice-presidente, Luís Tavares Pereira, do seu Conselho Directivo Regional, expressou ao provedor "surpresa e indignação" pela forma que a Edição Norte do PÚBLICO de 26 de Setembro, na secção Local, deu à notíciaArquitecto preso por deixar assaltante cego e em coma, a qual "coloca despropositadamente o ênfase da mensagem na profissão do autor da agressão, denegrindo o bom nome da profissão arquitecto". Sustenta a reclamação: "Um crime de agressão e abandono de vítima pelo agressor é noticiado com a identificação em cabeçalho do agressor em função da sua profissão de arquitecto e repetindo-o continuadamente em cada um dos três parágrafos que compõem a notícia. A relevância para a notícia da profissão de arquitecto, não estando este no exercício da profissão, parece-nos um aproveitamento desproporcionado da associação entre uma profissão de prestígio cívico e um acto ignóbil (...), que, ao ser enfatizada desta maneira, constitui um atentado ao bom nome da profissão de arquitecto, atingindo toda a classe desnecessariamente. (...) Está em causa (...) a gratuitidade e prejuízo com que a excessiva ênfase na profissão estende uma fina manta de negatividade sobre toda a classe". Solicita-se por isso ao PÚBLICO, "em nome de todos os arquitectos, um pedido de desculpas".

 

O provedor julga injustificada esta reacção corporativa. O facto de no centro dos acontecimentos se encontrar, de forma um tanto ou quanto inesperada, um arquitecto pode dar interesse acrescido à notícia. E os leitores do PÚBLICO não são tão estúpidos a ponto de pensarem, a partir daqui, que todos os arquitectos são violentos e agridem, com razão ou sem ela, quem se atravesse à sua frente.

 


publicado por Shyznogud às 14:58 | link do post