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Um amor morre - Miguel Gaspar (Pública, 29.11.2009, p.14)

O que é que fica quando o amor desaparece? Sinais de vida, toda a gente sabe. Bilhetes de comboio ou contas de restaurante que em vez de irem parar ao caixote do lixo ficam a marcar o mapa da memória. Insignificantes, são o transporte perfeito para fazer viajar as emoções. Cartas e fotografias também servem - para revisitar expressões e palavras. Ou frases ditas só uma vez e que mudaram tudo. Quando alguma coisa fica depois do amor é provavelmente porque algo do amor não morreu.

Joana e David amaram-se durante cinco anos. Joana tinha 20 anos e David tem 22. O que ficou do amor deles é igual ao que podia ter ficado de qualquer amor. As datas em que se conheceram era como um número mágico, inscrito em capas de cadernos, em fotografias, em sapatilhas, como descrevia a reportagem de Paulo Moura, a semana passada, no P2. Era impossível confundi-los, dizem os que os viram fazer compras e jantar na noite de sexta-feira, 13 de Novembro, em centros comerciais de Viseu. O amor pode ser visível do exterior - quando é assim, é porque é amor muito claro.

Que Joana e David se amaram é inequívoco, mas o que esse amor foi é tudo menos claro. Que deixou vestígios como todos os amores deixam, mas que sinais de vida representavam ninguém pode saber. Porque este amor não acabou como costuma acabar. Joana Fulgêncio, 20 anos, apareceu morta com o crânio desfeito, na mala de um carro junto a uma barragem. Como se fossem as imagens de um episódio de
Ossos, DavidSaldanha, autor confesso do crime, terá sido denunciado por uma câmara de vídeo que o mostrou a fingir-se vítima da agressão de um carjacker - era o alíbi de David, que também parecia copy-paste de um guião de Ossos. Era um amor, todos o relatam, excessivo. Demasiado possessivo, demasiado obsessivo, demasiado reclusivo. Um baú cheio de vestígios do namoro - como a fotografia desta página - conta essa história de dependência quase absoluta. De entrega mas também de anulação. A urgência do amor devia ser a sua maior beleza; mas talvez seja melhor reservar o amor total para a poesia. Na vida real, ele esmaga, abafa, afoga.

Não podemos julgar a vida dos outros. Eram dois namorados numa cidade do interior que viviam uma paixão intensa. A sua história podia ser igual à de tantos outros namorados, apenas uma pequena história. A fronteira que ultrapassaram e que tornou a sua história pública e conhecida talvez pudesse ter sido evitada e tudo ser apenas como nas histórias sem história. Mas o que foi que aconteceu acabou numa violência enorme. Desmesurado tudo, o amor, como foi vivido e como morreu. Como se fosse um romance - mas que deixou um ponto de interrogação solto.

O amor é como um nome, dizemo-lo, repetimo-lo, se calhar sem sabermos muito bem o que estamos a dizer. Conhecemo-lo através de vestígios. Temos tanto a dizer sobre vidas como estas, que nos parecem próximas, como se estivéssemos a falar de vidas de pessoas que nos chegam sob a forma de museu, enquanto restos, enquanto palavras que sabemos como foram escritas mas não como eram ditas.

Foi obscuro este amor e foi obscura a forma como morreu. Mas a violência deixou aqui um traço claro. O contrário dos vestígios insignificantes a que a memória dará o sentido do que é irrepetível numa vida. Um vestígio de algo a que njão sabemos dar sentido, que tornou irrepetível uma vida.

publicado por Shyznogud às 12:34 | link do post